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CLAUDIA entrevista Sarah-jane Howe: “Tirei os dois seios antes de ter câncer”

Ela tinha 95% de possibilidade de desenvolver câncer de mama e tomou uma decisão radical. A ex-modelo inglesa Sarah-jane Howe conta sua experiência, mas avisa: “É uma escolha muito pessoal”

Por Isis Almeida

Em 2006, quando a ex-modelo inglesa Sarah-jane Howe, 35, optou pela mastectomia dupla, sua escolha causou polêmica tanto entre os médicos quanto entre seus familiares. Apesar de ainda não ter sido diagnosticada com câncer de mama, Sarah-jane já havia perdido sua mãe, uma avó e uma tia para a doença. “Quando descobri que, devido meu histórico familiar, tinha 95% de chance de desenvolver a doença, decidi que precisava tomar uma decisão, mesmo que radical, para continuar vivendo”, diz Sarah-jane. Ela questionou os médicos, enfrentou a família e amputou as duas mamas. CLAUDIA visitou Sarah-jane em sua casa no vilarejo de Ashton Keynes, perto da cidade de Swindon, oeste da Inglaterra, e conheceu um pouco melhor sua história.

CLAUDIA Como ficou sabendo que a mastectomia profilática era uma opção?
SARAH-JANE Um ano depois de ter perdido minha tia para o câncer, em 1995, minha avó foi diagnosticada com a doença tanto nas mamas quanto nos ossos. Além disso, minha mãe teve câncer de ovário pela segunda vez no mesmo ano. Era a terceira vez que minha mãe apresentava um tumor. Foi nessa época que comecei a pensar no risco que corria. Ao visitar o
médico que tratava da minha mãe, sugeri que fizéssemos o teste genético para saber quais eram minhas chances de desenvolver a doença. Na época, ele recusou dizendo: “O que você vai fazer se souber que suas chances são altas? Retirar os seios?” Ele fez a ideia parecer ridícula. Anos mais tarde, quando estava morando na Suíça, os médicos de lá sugeriram o teste genético e me disseram que a mastectomia preventiva era um opção. Voltei para Inglaterra, questionei os médicos daqui - que ainda não estavam familiarizados com a prática - e, em 2006, fiz a cirurgia.

CLAUDIA Não foi difícil para você, uma ex-modelo, tomar essa decisão? O que você levou em consideração?
SARAH-JANE Na verdade não. Sei muito bem o que é perder aqueles que amamos e não queria que meus três filhos passassem por isso. Além disso, estava cansada de viver como minha mãe, sem fazer planos com medo de morrer antes que eles se realizassem. Lembro que todos os meus amigos marcavam férias com seis meses de antecedência e eu nunca conseguia planejar nada com medo de ficar doente e morrer.

CLAUDIA Qual foi a reação da sua família?
SARAH-JANE Não tive apoio de ninguém praticamente, já que minha mãe, avó e tia não eram mais vivas. Meu marido e eu vivíamos um casamento conturbado. Não éramos felizes juntos. Também não conversávamos muito sobre a cirurgia, já que eu estava decidida a fazê-la e ele não apoiava a ideia. Pouco menos de um ano antes da operação, nós nos separamos.

CLAUDIA Você contou para seus filhos?
SARAH-JANE Os gêmeos eram muito pequenos para entender, mas Jasmine já tinha oito anos. Na época, a diretora da escola dela, que havia sido diagnosticada com câncer de mama e se preparava para fazer a mastectomia, conversou abertamente com os alunos sobre a doença e a operação. Isso facilitou muito as coisas. Quando contei para Jasmine, só precisei explicar que faria uma cirurgia para não ter a mesma doença que a diretora do colégio.

CLAUDIA Como foi o pós-operatório?
SARAH-JANE Quando acordei, sentia muita dor. As faixas amarradas ao redor do meu tórax não me deixavam ver a ausência dos seios. Apesar de tudo, me senti feliz. Era como se tivesse retirado um peso de minhas costas e dado uma nova chance à vida.

CLAUDIA Como foi a reconstrução? Sente-se feliz com o resultado?
SARAH-JANE Quando decidi pela mastectomia, estava decidida a viver sem meus seios. A reconstrução foi como um bônus. Apesar de não ter mais aréolas verdadeiras (tenho um par de artificiais que carrego na bolsa, caso precise) e de ter ficado com seis cicatrizes, estou feliz com o resultado. Tento sempre encarar a vida de uma forma positiva. Então, quando me questionam sobre a reconstrução, sempre brinco dizendo que, pelo menos, ganhei implantes de graça. (A operação de Sarah-jane foi coberta pelo sistema de saúde inglês).

CLAUDIA Como se sente em relação ao seu corpo dois anos após a operação?
SARAH-JANE Feliz. Hoje não corro mais o risco de ter câncer de mama e posso viver minha vida com mais tranquilidade. Já me acostumei com a aparência das próteses e com as cicatrizes. Hoje até consigo ver o lado positivo. Afinal, aos 35 anos, não teria seios tão firmes quanto as próteses (risos).

CLAUDIA Já precisou contar sua história ao conhecer uma nova pessoa?
SARAH-JANE Não é nada fácil, mas hoje me sinto bem mais segura. Meu primeiro namorado após a operação me ajudou muito. Ele me deixou à vontade e soube esperar o momento certo para que as coisas acontecessem. Lembro até hoje o desafio que foi tirar minha blusa na frente dele pela primeira vez.

CLAUDIA Você faz alguma coisa para ajudar outras mulheres na mesma situação?
SARAH-JANE Sempre dou palestras em diversos grupos de ajuda a mulheres com câncer de mama e participo das caminhadas e corridas contra a doença. Muitas vezes organizo reuniões na minha própria casa ou na casa de conhecidos para contar minha história.

CLAUDIA Aconselharia outras a tomarem a mesma decisão?
SARAH-JANE Não acho que minha decisão deva servir de exemplo para todas as mulheres que sofrem com a doença, já que essa é uma escolha muito pessoal. Mas acho que todas têm o direito de saber que a mastectomia como forma de prevenção é uma opção e, por isso, procuro contar minha experiência sempre que posso.


Fonte: CLAUDIA.abril.com.br / Portal IDE
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